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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Internacionalização






A UEM (Universidade Estadual de Maringá) está entre as três instituições brasileiras de ensino superior selecionadas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para participar do American Council on Education (ACE), Laboratório de Internacionalização, que será realizado em Washington. As Universidades Federais do Pará e de Goiás completam o trio.

O objetivo do projeto, que abrange um ano e meio de formação e tutoria, é ajudar as instituições participantes a desenvolverem planos abrangentes e estratégicos de internacionalização, definindo áreas prioritárias, objetivos, metas e ações. Além dos encontros em Washington, estão previstas reuniões em Brasília e visitas da comitiva americana à UEM.

A assessora de cooperação internacional, Sandra Schiavi (foto acima), e o diretor de pesquisa da UEM, Luiz Fernando Cótica (foto abaixo), representam a Universidade nesta iniciativa, que teve início no começo deste mês.






Sandra Schiavi comenta que a UEM já tem um processo de internacionalização estruturado e que a busca atual é agregar ações isoladas em um projeto mais abrangente e institucionalizado, capaz de elevar o patamar da Universidade nesta área, possibilitando, inclusive, que ela se torne referência em modelo de internacionalização no Paraná. “Neste sentido o curso a participação no ACE será um importante impulsionador”, opina a assessora.

Para Schiavi é necessário ir além dos acordos de cooperação e programas de mobilidade com instituições estrangeiras. O processo de internalização deve permear, ainda segundo a assessora, o ensino, a pesquisa, a extensão e os currículos de docentes, discentes e agentes universitários, a comunicação e tantas outras áreas.  São qualificações que precisam ser feitas até como contrapartida na participação no programa americano.

A seleção da UEM ao American Council on Education tem uma relação direta com o resultado alcançado no último edital do Programa Institucional de Internacionalização (PrInt). É o que pensa Sandra Schiavi.

Criado pela Capes, o PrInt visa a fomentar o desenvolvimento de planos estratégicos de internacionalização como meio de melhorar a qualidade dos cursos de pós-graduação nacionais e de conferir maior visibilidade internacional à pesquisa científica realizada no Brasil. A assessora de cooperação internacional lembra que apesar de não ter seu projeto contemplado no programa, a UEM chegou “quase lá” o que contribuiu para carimbar seu passaporte rumo a formação oferecida pelo ACE

Instituições participantes
Além das três universidades brasileiras também participam do programa as seguintes instituições: Bethany College (WV), California State University, San Bernardino, Loyola Marymount University (CA), Mercer University (GA), Purdue University Northwest, Rhodes College (TN), Sinclair College (OH), Southern Illinois University, SUNY - The College of Brockport, University of California San Diego, University of Delaware, University of Missouri, Kansas City, University of Nebraska-Lincoln, University of North Georgia e York College of Pennsylvania.

domingo, 25 de agosto de 2019

Universidade e Sociedade



“A sociedade mudou e nós não percebemos”

No USP Talks, reitores das três universidades estaduais paulistas enfatizam necessidade de uma maior interação com a sociedade





Os reitores Marcelo Knobel (Unicamp), Vahan Agopyan (USP) e
Sandro Valentini (Unesp) e o jornalista Herton Escobar durante 
debate sobre educação
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
.


As universidades precisam interagir mais com a sociedade, e se comunicar melhor com ela, reconhecendo que as demandas e a percepção pública dessas instituições estão em constante evolução.

“Esse é o nosso grande desafio”, disse o reitor da USP, Vahan Agopyan. “Não porque a universidade ficou isolada numa torre de marfim”, como se costuma dizer, mas porque “a sociedade mudou, e nós não percebemos”, completou.

Os comentários foram feitos na última edição do USP Talks, que reuniu os reitores das três universidades estaduais paulistas para falar sobre os desafios da educação no Brasil, no último dia 20, em São Paulo.

Segundo Vahan, a sociedade hoje é “mais exigente, mais preparada e tem expectativas maiores” do que antigamente, que precisam ser levadas em conta na maneira como as universidades se relacionam com ela. “Não adianta falar em número de papers ou prestígio do paper, porque não é o que a sociedade deseja”, disse. “Quero que a sociedade entenda que a universidade é onde ela vai conseguir ter as suas discussões e o seu desenvolvimento. Essa é a nossa meta.”



Comunicação com a sociedade, melhor formação e internacionalização foram
alguns dos temas destacados pelos reitores no evento especial do 
USP Talks  – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
 
O reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel , falou sobre a necessidade de dar mais flexibilidade ao sistema e ampliar a multidisciplinaridade da formação universitária, buscando melhorar a preparação dos alunos para os novos desafios do século 21 — incluindo a capacidade de se adaptar rapidamente a novas carreiras e novas tecnologias que deverão surgir, muitas vezes de forma inesperada.

“Estamos indo na contramão do mundo inteiro no que se refere à maneira de ensinar e ao que ensinamos”, disse Knobel. “Nosso sistema é engessado, extremamente conteudista, rígido e muito, muito complicado. Tudo no sentido contrário do que a tendência mundial indica.”

“Sem dúvida precisamos avançar e começar a educar para o século 21, e não continuar ensinando como no século 19”, destacou, também, o reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandro Valentini. Ele lembrou da sua origem simples no interior paulista, filho de um funileiro mecânico, e disse que entende a educação como uma forma de emancipação. “Todos os jovens deveriam ter essa oportunidade.”

Valentini destacou também o papel da internacionalização, “não apenas para atingir rankings, mas para transformar os jovens”; e a importância de demonstrar o impacto social das pesquisas feitas nas universidades, “muito importante para recuperar ou fortalecer a nossa legitimidade perante a sociedade”.

Cada reitor fez uma apresentação individual de 15 minutos, e na sequência participaram de um debate com a plateia, em que foram levantados diversos temas. Entre eles, o programa Future-se, do governo federal, e a CPI das universidades, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

Os vídeos do evento estão disponíveis abaixo e no canal do USP Talks no YouTube, onde é possível assistir também a todos os eventos anteriores do programa.



 

Serviço

O USP Talks é uma iniciativa da USP, com o objetivo de aproximar as universidades da sociedade. Os eventos são realizados mensalmente, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp), com entrada gratuita e transmissão ao vivo pela internet. Para saber mais e acompanhar a programação, siga nossas páginas nas redes sociais: Facebook, YouTube e Twitter.

domingo, 30 de junho de 2019

Inclusão na Universidade




Pessoas com necessidades especiais: inclusão na sociedade e na universidade





Os alunos da Turma X da disciplina interprofissional "Atenção em Saúde" pertencentes aos 7 Cursos da área da Saúde da UEM ( Biomedicina, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Medicina, Odontologia e Psicologia) definiram as questões da Equidade e da Inclusão como prioridades para intervenção e como parte das atividades planejadas organizaram no último dia 27de junho de 2019 uma mesa-redonda com o tema: "Pessoas com necessidades especiais:inclusão na sociedade e na universidade". 

Os debatedores foram Raquel de Araújo Bonfim e Fabiana Polpeta Medeiros, representantes da ANPR (Associação Norte Paranaense de Reabilitação), Tania Alvarez Silva pelo PROPAE (Programa Multidisciplinar de Pesquisa e Apoio à Pessoa com Necessidades Educativas Especiais) da UEM e Wellington Liziero Dias, aluno do Curso de Biomedicina como representante dos alunos com necessidades especiais.  





O evento contou com a presença de alunos, professores e servidores da UEM e membros da comunidade externa. 


* Este evento integra as atividades desenvolvidas pela UEM em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Maringá e a sociedade. Contou com o apoio da DEPE/HURM-UEM e do Projeto PróSaúde/PET-Saúde.



sexta-feira, 22 de março de 2019

Hospital Universitário




Planejamento é a palavra de ordem da nova gestão


Ana Paula Machado Velho



 
A ortopedista e docente do curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Elisabete Mitiko Kobayashi, tomou posse, nesta segunda-feira (18), pela manhã, e já arregaçou as mangas para dar início oficial à administração de sua equipe, eleita para a Gestão 2019-2022, no Hospital Universitário Regional de Maringá (HUM).

Segundo a doutora Elisabete (foco acima), a saúde pública no Brasil vem enfrentando graves problemas há anos e isso tem afetado os Hospitais Universitários, como o HUM, dificultando o acesso a essas instituições e agravando o atendimento à população. Ela lembra que, com a crise que o Brasil enfrenta, muitos usuários deixaram os planos de saúde privados e passaram a usar o Sistema Único de Saúde (SUS). O impacto desta realidade vem sendo sentido no atendimento da urgência e emergência.  

“O sistema público de saúde ainda sofre por não ter uma estrutura adequada para o atendimento global do paciente. Prova disso é a fila de espera por consultas ambulatoriais e cirurgias eletivas em todo o país. Esta longa fila culmina na piora do quadro do paciente e desagua nos prontos atendimentos, seja nas UPAs ou nos hospitais públicos, que já não conseguem atender a tão alta demanda e vivem na mídia por incapacidade operacional. A prevenção, que ainda é o melhor caminho para a saúde, está deficiente. Essas ações não têm sido feitas nos ambulatórios. Se isso não funciona, há um impacto enorme nos serviços de urgência e emergência. Juntando essa realidade com a falta de políticas fortes no setor de prevenção à violência no trânsito e à violência interpessoal, o cenário se agrava e vemos faltar leitos de urgência e emergência e nas UTI”, descreve a ortopedista do HUM.


Três décadas - A nova gestora lembra, ainda, nos seus 30 anos de existência, o HUM de Maringá pouco cresceu em relação aos outros hospitais universitários, tornando–se o menor do estado do Paraná. Porém, o Hospital Universitário de Maringá é uma importante porta de entrada na região, sendo referência para os serviços de emergência do SIATE e do SAMU. Além disso, aparece nos mapas de atendimento como porta aberta para a demanda espontânea e através da regulação de pacientes pela Central de Vagas do Estado. Mensalmente, o HUM atende em torno de 6 a 7 mil pacientes no Pronto atendimento, em uma estrutura ainda acanhada.

“Não conseguimos avançar em melhorias de atendimento e estrutura física do nosso HUM. Precisamos urgentemente acabar de construir o Hospital, dando andamento, principalmente, às obras já iniciadas e, por ora, paradas por falta de recursos. O SUS é universal e o doente recebe atendimento gratuito, porém, o leito do SUS não é gratuito. O custeio de todos os leitos previsto no orçamento, muitas vezes, não corresponde às despesas reais. Fazer a boa medicina implica em custos operacionais, por vezes, maiores do que o SUS subsidia. O custo do doente-dia deve ser preocupação dominante da administração sem prejuízo do suprimento indispensável ao bom atendimento ao paciente, da boa alimentação e dos necessários cuidados médicos. Os recursos próprios do HUM, ultimamente, têm sido consumidos por uma folha de pagamento que aumenta, a cada ano, por falta de abertura de concursos públicos, o que impede novos investimentos ou reposição de equipamentos e manutenção de nossa estrutura. A falta de reposição de funcionários, seja por aposentadoria, morte ou demissões, tem se intensificado ano a ano. Estamos evoluindo rapidamente para um sucateamento do hospital, deixando de fazer diagnósticos por falta de bons equipamentos e diminuindo a qualidade de atendimento final. Necessitamos urgente de um olhar do estado para esta situação, porém, não nos eximimos de fazer o nosso dever de casa, em tornar o atendimento mais efetivo e eficaz”, alerta a doutora Elisabete.


Reconhecimento - Enfim, a superintendente do HUM destaca que é preciso resgatar a credibilidade do Hospital Universitário de Maringá junto à comunidade interna e externa. A médica prometeu trabalhar para conquistar o verdadeiro crescimento do Hospital, que vai além da assistência, deve atingir as áreas de ensino e pesquisa. Kobayashi disse vai organizar o serviço internamente, abrindo frentes de negociação e diálogo com os gestores públicos.

“O curso de medicina da UEM é um dos melhores do Brasil, temos também alunos da graduação da enfermagem, análises clínicas, psicologia, as residência médicas e multiprofissional, acabamos de abrir a pós-graduação em Urgência e Emergência, temos projetos de pesquisa de relevância clínica em andamento dentro do HUM, um Hemocentro de primeira qualidade.  Este é o HUM que a população não vê e nem a mídia mostra.  Somos formadores de profissionais para a rede de atendimento do SUS e setor privado. Nestes 30 anos de existência do curso de medicina, colocamos excelentes profissionais no mercado de trabalho de Maringá e região. A qualidade da medicina, hoje praticada em Maringá, os avanços e inovações no atendimento aconteceram com o impacto do retorno destes egressos da UEM. Isso precisa ser reconhecido”, lembrou a superintendente.






Compromisso - Segundo a nova gestora, o HUM se dispõe a aumentar a oferta de serviços, mas precisa acabar a sua construção e montar uma nova estrutura de ambulatório, para ofertar mais consultas eletivas e melhorar o local de ensino. Será possível aumentar o número de atendimentos no momento em que o HUM terminar o seu plano diretor e recompor o quadro de funcionários, através de concursos pelo Estado.

“O resultado das urnas nas eleições do HUM mostrou que os funcionários, docentes e alunos confiam na capacidade da nossa equipe (foto acima) e nossas propostas. Mostrou a confiança em um grupo técnico, com experiência e conhecimento em gestão administrativa, gestão de pessoas e gestão de processos. O nosso compromisso com todos é de uma gestão séria e competente, com transparência nas ações e mais próxima dos que aqui trabalham. Fizemos um compromisso de estarmos presentes e arregaçarmos as mangas todos juntos para reagirmos e colocarmos o HUM nos trilhos novamente. A ideia é profissionalizar o Hospital, nos próximos anos, para que a gente consiga ter uma gestão otimizada e de qualidade. Este é o compromisso desta equipe que agora assume a direção do HUM. A direção do Hospital se compromete a fazer uma boa gestão e esperamos que haja a resposta dos nossos governantes”, concluiu Elisabete Kobayashi.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ensino superior




Livro investiga os três modelos mais influentes de educação superior


José Tadeu Arantes


 Alemanha, França e Estados Unidos criaram sistemas educacionais que foram copiados por outros países, inclusive o Brasil. Neste estudo, os três modelos são esmiuçados (foto:Anfiteatro Turgot/Sorbonne)


Três modelos de educação superior repercutiram globalmente, influenciando as iniciativas educacionais de diferentes países: o alemão, o francês e o norte-americano. No Brasil, por exemplo, as diretrizes que estruturaram o ensino superior foram, de início, fortemente calcadas na norma francesa – determinante na criação da Universidade de São Paulo, em 1934. Sofreram, depois, pesada influência norte-americana, na reforma educacional promovida pela ditadura civil-militar, em 1969. Um livro, há pouco publicado, investiga os três modelos internacionais de educação superior referidos. Seu título expressa de forma muito simples e direta o conteúdo: Modelos internacionais de educação superior: Estados Unidos, França e Alemanha.

Coordenado por Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o livro constitui um subproduto do projeto “Ensino superior, políticas de pesquisa e inovação, processos de desenvolvimento - estudo comparado de quatro países: Alemanha, Brasil, França e Estados Unidos”, conduzido por Moraes e apoiado pela FAPESP. E também recebeu apoio da FAPESP para publicação. Além de Moraes, participaram da redação as pesquisadoras Maitá de Paula e Silva e Luiza Carnicero de Castro.

“Os três modelos foram escolhidos por nós porque, de certo modo, forneceram padrões que se disseminaram pelo mundo”, disse Moraes à Agência FAPESP. “O modelo alemão, o mais antigo do período contemporâneo, criado por Humboldt na primeira metade do século XIX, estabeleceu um sistema que combina ensino e pesquisa. Tornou-se tão influente que a Alemanha se transformou no polo de atração para os grandes intelectuais norte-americanos no final do século XIX e início do século XX. Era para lá que eles se dirigiam, com o objetivo de aprofundar sua formação em pesquisa. Vários deles estudaram na Alemanha, inclusive Talcott Parsons [1902-1979], o fundador da sociologia norte-americana, que frequentou a Universidade de Heidelberg, em 1927”, prosseguiu.

Quando as universidades de pesquisa norte-americanas foram criadas, em 1870, seus fundadores se inspiraram no modelo alemão. John Hopkins, Chicago, Clark seguiram esse modelo. Após a Segunda Guerra Mundial, com a Europa devastada, os Estados Unidos tornaram-se o centro do mundo. Os fabulosos recursos econômicos proporcionados pela atividade industrial voltada para o esforço de guerra forneceram a base material para a hegemonia cultural norte-americana, que as indústrias cinematográfica e fonográfica ajudaram a disseminar. E isso repercutiu também na exportação de seu modelo de ensino superior.

“O terceiro modelo, o da França, foi replicado nos países que participaram do antigo império colonial francês. Mas não apenas neles. Foi também influente em outros lugares, inclusive no Brasil, servindo de paradigma para a criação da Universidade de São Paulo”, afirmou Moraes. Foi à França que o então governador do Estado de São Paulo, Armando de Salles Oliveira, enviou o matemático Teodoro Ramos, professor da Escola Politécnica, para contratar professores e pesquisadores das várias áreas do conhecimento com o intuito de compor o quadro docente da futura USP. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, o historiador Fernand Braudel e o sociólogo Roger Bastide foram alguns dos que atenderam ao convite.


Do ensino profissionalizante às escolas nobres

A pesquisa conduzida por Moraes proporcionou algumas informações de certo modo surpreendentes. “Quando se considera o ‘índice de cobertura’, isto é, a porcentagem de jovens na faixa etária adequada que frequentam instituições de ensino superior e o percentual da população adulta que tem diploma de curso superior, os da Alemanha são os menores no comparativo entre os três países. E, no entanto, a Alemanha é dos três a que possui o padrão industrial mais inovador”, disse o pesquisador.

A explicação para esse aparente paradoxo está na força do ensino médio alemão. “A Alemanha deu muita importância à escola média e profissionalizante como a organização que administra a transição da juventude para a idade adulta: 70% dos jovens alemães desfrutam de algum tipo de ensino profissional. A universidade é um degrau a mais, cujo acesso é relativamente restrito. "Os americanos, ao contrário, têm um ensino médio de qualidade muito desigual. A maioria das High Schools têm baixa qualidade. Eles tentam resolver essa deficiência no nível superior por meio dos Community Colleges, que oferecem um ensino de curta duração, de dois ou três anos, e cujo nível é quase equivalente ao do ensino médio alemão”, informou Moraes.

Como se depreende, a comparação internacional é difícil, pois um mesmo termo nomeia, muitas vezes, coisas bastante diferentes. A Alemanha possui um ensino médio fortíssimo, com viés profissionalizante. E dois tipos de instituição de ensino superior: a universidade e a escola superior. O tempo médio de permanência dos alunos nessas instituições é de cinco a seis anos. Os Estados Unidos, ao contrário, têm um ensino médio fraco e procuram suprir essa deficiência estrutural com os Community Colleges. “Bombeiros, ajudantes de enfermagem, eletricistas, detetives se formam em Community Colleges”, comentou o pesquisador.

Segundo Moraes, mesmo universidades norte-americanas que estão no topo do ranking mundial possuem um ensino de graduação menos sofisticado, concentrando seu padrão de excelência nos cursos de pós-graduação.

A França possui um modelo que fica entre os dois extremos. Tem um sistema de educação superior com basicamente quatro tipos de escola. Uma delas é a universidade. Praticamente todos os estudantes que terminam o ensino médio têm o direito de entrar em alguma universidade. A despeito de seu renome internacional, a universidade francesa é pouco seletiva, a não ser em alguns cursos específicos, como o de medicina. “Em geral, ela é uma ‘escolona’ aberta e não o centro de educação da elite profissional, pública ou privada, nem o centro da pesquisa científica e tecnológica. Isso como regra geral, é claro, pois existem alguns departamentos de algumas universidades que são altamente sofisticados”, ressaltou Moraes.

“A instituição nobre para a formação dos quadros de nível superior é a chamada ‘Grande Escola’: a Escola de Minas, a Escola Politécnica, a Escola Nacional de Ciência Política etc. Estas são seletivas e altamente elitizadas. Formam a elite da elite: presidentes, ministros, diretores de grandes empresas etc. Essas escolas estão fora da estrutura das universidades. Os melhores alunos dos liceus, do ensino médio, se candidatam para elas. Mas, quando aprovados, não entram propriamente nas Grandes Escolas. Fazem o que se chama de classes preparatórias para as Grandes Escolas. São três anos cursados nos próprios liceus. Depois, completam sua formação, com mais dois anos nas Grandes Escolas. Por isso, muitos professores de ensino superior ensinam como agregados [agrégés] nas grandes escolas preparatórias”, prosseguiu.

Muitos dos professores que vieram ao Brasil dar aulas na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP eram, na verdade, professores desses liceus nobres. Foi o caso, por exemplo, de Fernand Braudel (1902- 1985), um dos principais integrantes da chamada École des Annales, que renovou a historiografia francesa e internacional. Braudel foi agrégé nos liceus Pasteur, Condorcet e Henri-IV em Paris, antes de vir para o Brasil e colaborar na estruturação da Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1935 a 1937.

“Outro diferencial é que, na França, a pesquisa científica e tecnológica não é administrada pelas universidades, mas por grandes instituições públicas, como, por exemplo, o CNRS [Centre National de la Recherche Scientifique – Centro Nacional da Pesquisa Científica]. Trata-se de um grande contratador e financiador da pesquisa. Muitos cientistas fazem suas carreiras ali. O CNRS estabelece contratos com departamentos e laboratórios de universidades e cria centros de pesquisa de excelência dentro de universidades. Mas esses centros não pertencem às universidades, e, sim, ao próprio CNRS”, acrescentou o pesquisador.

As outras duas instituições de ensino superior francesas foram criadas na transição dos anos 1960 para 1970. Uma delas é o instituto universitário tecnológico (Institut Universitaire de Technologie – IUT), que é seletivo (os aspirantes devem passar por exame de seleção) e muito exigente, muito escolar em seu funcionamento, com controle de frequência, provas todos os meses etc. O padrão de ensino é elevado e o percentual de transição da escola para o emprego é altíssimo.

A outra instituição, também seletiva, mas de nível um pouco mais baixo, é a seção técnica superior (Sections de Technicien Supérieur – STS). Constitui como que um segundo andar dos liceus, para formação de profissionais de nível médio qualificados, com cursos de curta duração, de dois ou três anos. Foi criada como um meio de democratizar e disseminar o ensino.


Ensino público x ensino privado

Tanto na França como na Alemanha, o ensino privado é mínimo, em todos os níveis: elementar, médio e superior. E o ensino superior é quase que totalmente público. Até nos Estados Unidos, o ensino superior de graduação é majoritariamente público: 70% dos alunos estudam em universidades estaduais públicas (não há federais) ou em Community Colleges, que também são públicos. “Mas a educação pública superior nos Estados Unidos é paga, com anuidades e taxas. Um terço do orçamento das escolas é sustentado pelas taxas cobradas dos estudantes. O restante é basicamente dinheiro público. Inclusive grandes e renomadas escolas privadas, como Harvard e MIT, recebem enormes aportes de dinheiro público. O rendimento proveniente das aplicações dos patrimônios privados das universidades e as doações feitas por grandes magnatas cobrem uma parte mínima dos orçamentos. Essas doações servem muito mais para os herdeiros comprarem seus lugares nas escolas”, disse Moraes.

O pesquisador acrescentou que outra importante fonte de recursos para as instituições de ensino superior é a pesquisa contratada. O Massachusetts Institute of Technology (MIT) é, basicamente, um grande provedor de pesquisa contratada. No passado, essa pesquisa foi quase que inteiramente direcionada para o setor militar. Hoje, está mais diversificada, com destaque também para a área de saúde. É claro que os estudantes se beneficiam com essas pesquisas, porque muitos deles se vinculam a laboratórios mantidos pelos contratadores. Mas os gastos com ensino têm importância menor no orçamento da instituição.

Já foi dito que o modelo brasileiro combinou as influências francesa e americana. Esta prevaleceu a partir da reforma universitária da ditadura, com a eliminação da cátedra, a departamentalização, a adoção do sistema de créditos, a chamada diversidade institucional, isto é, a coexistência de universidades e escolas isoladas. Menos conhecido é o fato de que houve também uma influência do modelo inglês no padrão de financiamento da pesquisa, com a criação de agências como a FAPESP, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) etc., que atuam de maneira complementar às universidades.

Modelos internacionais de educação superior: Estados Unidos, Alemanha e França
Autores: Reginaldo C. Moraes, Maitá de Paula e Silva, Luiza Carnicero de Castro
Ano: 2017
Páginas: 116
Preço: R$ 38,00



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Inovações curriculares



Inovações em Atividades Curriculares
 

Nov.
30

OS DESAFIOS DO ENSINO SUPERIOR

 
30 de Novembro - Workshops pré-evento
1 e 2 de Dezembro - Seminário Inovações Curriculares 2017
A VI edição do Seminário Inovações em Atividades Curriculares terá como objetivo discutir as várias facetas da inovação curricular como atividade pedagógica articulada. Entre outros pontos, serão discutidos:
  • (a) desenvolvimento profissional docente no ensino superior;
  • (b) condições para desenvolvimento de propostas inovadoras de ensino-aprendizagem;
  • (c) trocas de experiências em inovações curriculares desenvolvidas nas diferentes áreas de conhecimento.
O evento ocorrerá de 30/11 a 02/12 de 2017, com diversas atividades, incluindo workshops, conferências (sendo uma internacional), mesas-redondas, sessões de pôsteres, sessões de comunicação oral, feira de livros e produtos inovadores ligados ao ensino, além de atividades culturais.

Centro de Convenções da Unicamp

Site do Evento

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ensino Superior




NOTA À SOCIEDADE


A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), preocupada com o cumprimento das missões de ensino, pesquisa e extensão das universidades públicas federais, gratuitas e com a qualidade que a sociedade brasileira e o desenvolvimento sustentável do país requerem, diante da conjuntura de cortes e contingenciamento de seus orçamentos, vem alertar a sociedade sobre os seguintes problemas atualmente enfrentados:

– Perdas orçamentárias em 2017: O orçamento de 2017 já representou corte significativo em relação ao de 2016 (6,74% nominal na matriz de custeio, 10% no programa de expansão Reuni, 40,1% em capital, 3,15% do Programa Nacional de Assistência Estudantil e mais 6,28% de inflação no período);

– Limite orçamentário de 2017: até o momento foram liberados apenas 75% do orçamento de custeio e 45% do orçamento de capital. Para manter o funcionamento mínimo das instituições é indispensável a liberação de 100% de ambos os limites, uma vez que já estamos absorvendo fortes perdas orçamentárias como indicado acima;

– Orçamento de custeio para 2018: O orçamento para 2018 mantém os valores da matriz de 2017, reduz o Reuni em aproximadamente 11% e não recompõe a inflação do período, além de desconsiderar a expansão do sistema.
 
– Orçamento de investimento para 2018: O MEC não disponibilizou os valores de limite orçamentário de investimento, sobretudo na Ação 8282. Essa situação alarmante permanece ainda hoje, o que pode sinalizar a inexistência de orçamento de investimento na PLOA 2018 das IFES, fato gravíssimo que afetará, por exemplo, a aquisição de livros, equipamentos de laboratórios, softwares e a continuidade das obras em andamento já contratadas;

– Liberação de Financeiro: A situação financeira, com dois repasses ao longo de cada mês, inferiores a 60% da despesa liquidada, traz ônus de grande magnitude às instituições, levando à perda de confiabilidade por parte de nossos credores, ao pagamento de multas e juros, além de obrigar as instituições a selecionar quais despesas pagar, fato inaceitável;

– Recursos próprios: Impossibilidade de suplementação orçamentária na Arrecadação Própria e Convênios, ocasionando perdas significativas para as instituições.

– PNE na LDO: A prioridade para as metas do Plano Nacional de Educação foi retirada da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2018, por meio de veto presidencial e em nome do ajuste fiscal, fragilizando ainda mais o compromisso do Governo Federal com a educação.

– Defasagem do Aluno Equivalente: O relevante crescimento das Universidades Federais não foi correspondido por orçamento compatível (hoje o valor em reais por Aluno Equivalente é 42% menor do que em 2011), colocando em risco as atividades, contratos e nossa função social e científica na sociedade brasileira. No mesmo período, o programa de subsídio às Instituições Privadas de Ensino Superior por meio do FIES passou de 2,1 para 21 bilhões de reais, contrariando a Meta 12 do PNE, que prevê ampliação das vagas públicas dos atuais 25% para no mínimo 40% do total de matrículas.

Face a esse conjunto de informações, o Conselho Pleno da ANDIFES conclama a sociedade a cobrar do Governo Federal ações emergenciais visando o reequilíbrio orçamentário e financeiro das universidades públicas federais e a recomposição de seus orçamentos no Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2018. Os problemas orçamentários e financeiros vivenciados são agravados, ainda, pela existência da Emenda Constitucional 95 e podem significar não apenas a perda de recursos de investimentos para 2018, mas pelos próximos 20 anos.

Ressaltamos a importância de afirmar o relevante papel cumprido pelas universidades públicas federais em sua missão social, acadêmica e científica, que, a despeito das adversidades, mantêm-se como referência no país, na América Latina e no mundo. As melhores universidades brasileiras são públicas, aí incluídas as universidades federais, conforme demonstrado nos diversos rankings de avaliação; é nessas universidades que se oferece a melhor formação de profissionais de nível superior, como atestado pelo próprio Ministério da Educação; é nas universidades federais que são titulados mais da metade dos mestres e doutores do país; e é nas universidades federais que se produz parte expressiva da ciência e da inovação que geram riqueza e renda para a sociedade brasileira. Por isso, o que está em risco é o futuro do país, não apenas o pagamento das contas do ano de 2017; por isso, é indispensável defender as condições de funcionamento das universidades públicas federais.


Brasília, 24 de agosto de 2017.
Conselho Pleno da ANDIFES