sábado, 24 de agosto de 2013

Público e privado na Saúde



Reflexão

O SUS que temos e o SUS que queremos

Roberto Zonato Esteves

Em países que realmente encaram a saúde como um dever do Estado, as pessoas têm atendimento público de qualidade e a opção de pagarem por um atendimento privado, se quiserem. No Brasil, temos um sistema que estimula o atendimento privado como forma de diminuir a demanda por serviços públicos e deixa o atendimento público para os que não tem escolha.

Vendo a questão como um defensor dos princípios do SUS, fico muito preocupado com políticas de estado que enfraquecem os seus alicerces. Se o Estado deixasse de estimular, com o abatimento no Imposto de Renda da Pessoa Física, o cidadão a ter um plano de saúde e limitasse os gastos crescentes com o financiamento de planos de saúde dos funcionários públicos, teríamos uma classe média instruída e ciente de seus direitos a pressionar pelo adequado financiamento do SUS e a qualidade do atendimento. Aumentaria muito a chance de êxito de conseguirmos a aprovação dos 10% das RBU para a saúde.

Com a redução dos miseráveis observada nos últimos vinte anos, temos uma nova classe média emergente que passa a ser consumidora de produtos e serviços e que tem como “sonhos de consumo”  casa, carro e plano privado de saúde, nesta ordem. A inclusão social está gerando um nicho para os planos privados de saúde de clientes capazes de pagar pouco por um atendimento um pouco melhor ( será?) que o público.
 

É lógico que para atender esta nova demanda, precisaremos de médicos e outros profissionais de saúde, ambulatórios, hospitais, laboratórios etc que drenarão ainda mais recursos públicos. O Estado não injetará mais recursos no sistema público mas estimulará o escape para a saúde suplementar.

Vendo esta questão pelo ângulo de estudioso da Educação das Profissões de Saúde, preocupa-me ver que o Governo propõe ações como o Mais Médicos e a extensão dos cursos de Medicina para 8 anos quando, na verdade, investe maciçamente em estimular o modelo privado. Quando pretende melhorar a distribuição de médicos no Brasil e a sua presença no sistema público mas estimula de forma velada e indireta a criação de postos de trabalho na saúde suplementar, mostra que o pensamento neoliberal que norteia os nossos governos sobrepõe-se claramente aos ideais da reforma sanitária.

Como motivar nossos alunos a formarem e trabalhar para o SUS quando o próprio governo emite sinais tão claros de que considera o SUS um sistema pobre para pobres e que sua visão de sociedade igualitária é aquela onde todos  pagam por seu plano privado de saúde?


 

3 comentários:

shamyr disse...

Prezado Roberto,
Concordo plenamente com suas palavras e penso que, com medidas governamentais como as que você cita, a cada dia a saúde se torna mais um serviço e menos um direito de todos.
Abraços
Shamyr Castro

Amanda amandapohlmann disse...

Belo raciocínio!

Transplante hepático Pediátrico disse...

Prezado Prof Roberto,

Sem dúvida seu texto demonstra conhecimento da área. Como vc, todos os dias vivencio este estímulo a saúde suplementar e a queda da qualidade da atenção à saúde em ambos os sistemas, público e suplementar. E o que fazercom o que temos desenvolvido, discutido, estudado e experimentado nestes últimos anos? Rasgamos as DCN e voltamos aos quadradinhos? Como andar na contramão? Como dizem...cuidado com o que se pede, vc pode receber!