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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Burnout





 


 
Doutor em Psicologia, Lucas Soldera estimula que pessoas previnam-se com hábitos saudáveis e tempo para lazer

Profissionais especializados e a sociedade estão cada vez mais com os olhos voltados à Síndrome de Burnout, do Esgotamento Profissional ou simplesmente Burnout. Isso é justificável pelo fato de que no mundo atual há enormes cobranças na vida profissional – na qual muitas vezes as qualificações precisam beirar a perfeição, as atribuições são maiores que a carga horária de trabalho, a concorrência é exorbitante e as cobranças vêm de todos os lados, todo o tempo.

De língua inglesa, “burnout” significa “combustão”. Lucas Martins Soldera, chefe do Departamento de Psicologia (DPI) da Universidade Estadual de Maringá (UEM), compara que, ao invés da gasolina, o combustível é a energia humana, ou seja, ocorre quando o paciente fica “esgotado física e psiquicamente, principalmente por questões relacionadas ao ambiente de trabalho”. Diferentemente do que possa parecer, o Burnout não atinge apenas o trabalhador, mas igualmente pode acometer estudantes e desempregados. “O trabalho não é só desempenhar uma função, é se relacionar, criar sentido naquilo que faz e ter prazer em uma determinada atividade, com carteira assinada ou não”, observa o doutor em Psicologia.

Ainda de acordo com o professor, as causas do Esgotamento Profissional estão ligadas principalmente a: aumento de pressão, cobranças e responsabilidades; tensão; estresse; condições ruins de trabalho; carga horária excessiva; falta de férias e de autonomia; e conflito de valores pessoais com a atividade desempenhada. “Cada dia mais é frequente a necessidade da produtividade, da excelência e da competitividade. Vivemos num mundo de trabalho que está sendo precarizado”, aborda Soldera. Ferramentas que deveriam facilitar o dia a dia, inclusive o profissional, como o smartphone, estão contribuindo para o esgotamento. “Trabalhamos constantemente, em tempo integral, e não percebemos”.


Histórico
O Burnout não é novo, foi descoberto em 1974 pelo psicólogo Herbert Freudenberger, de acordo com a Revista Brasileira de Medicina do Trabalho. E há 20 anos, a Portaria 1.339/99 do Ministério da Saúde já o colocava como uma “dificuldade física e mental relacionada com o trabalho”. Soldera acrescenta que desde 2010 o Burnout também aparece listado na Classificação Internacional de Doenças (CID) e fala que nem sempre se manifesta sozinho, pode vir associado, por exemplo, a depressão, Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (Dort). No mês de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que incluiu o Burnout na 11ª Revisão da CID (CID-11) como “síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”.


Sintomas e tratamento

Para ser diagnosticada com Burnout por psicólogo ou psiquiatra, o chefe do DPI informa que a pessoa deve estar em uma situação constante e prolongada de esgotamento. Os principais sintomas, apontados por ele, são:

• Atitudes negativas;
• Falta de significado no que faz;
• Desprazer nas atividades cotidianas;
• Autodesvalorização;
• Distúrbios do sono;
• Cansaço;
• Dor de cabeça frequente;
• Dificuldade de concentração;
• Distanciamento das relações pessoais;
• Sensação de fracasso;
• Mudança repentina de humor;
• Alteração no batimento cardíaco.

A psicoterapia, correlacionada ou não com prescrição de remédios como ansiolíticos e antidepressivos, é a forma mais adequada de tratamento, conforme o doutor, que enfatiza que a automedicação não cabe jamais. “Em muitos casos, a efetiva mudança de rotina e estilo de vida já auxilia muito”, estimula o psicólogo.

Prevenção do Burnout

O trabalhador tem que permitir-se ir a eventos culturais e de lazer, ter vida social saudável, praticar modalidades esportivas, frequentar uma religião caso tenha interesse, dedicar um tempo para não fazer nada e tirar férias de verdade, que é “ter um tempo seu, distante daquilo que você faz no dia a dia”.

Serviços de apoio

Professores e técnicos administrativos da UEM podem procurar o Ambulatório Médico e de Enfermagem, no Bloco 01 do câmpus sede, em Maringá (PR). Informações podem ser obtidas por meio do telefone (44) 3011-4266.

Estudantes da UEM que precisarem de apoio podem recorrer à Unidade de Psicologia Aplicada (UPA): Avenida Mandacaru, 1.690, também em Maringá. O telefone para tirar dúvidas é o (44) 3011-9070 /9072.

Para a comunidade externa, há serviços privados e também a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), encontrada no Sistema Único de Saúde (SUS).

quarta-feira, 21 de março de 2018

Qualidade de vida do Estudante de Medicina







É NORMAL SOFRER PARA SE TORNAR MÉDICO?

Você – docente - sofreu? Muito?
Pensou que não iria suportar?
Que iria largar o curso?
E agora?
Pensa que tem que ser assim mesmo?
Se você conseguiu, por que os alunos de agora não conseguiriam?
Ou pensa que pode ser de outro jeito?

QUER DISCUTIR SOBRE ESSAS QUESTÕES?
Participe da web-oficina –  26 março 2018  13 – 15:30h

Organização:
  • Ieda Aleluia (Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e Universidade do Estado da Bahia-UNEB),
  • Paulo Marcondes (Universidade Federal de Santa Catarina, campus Araranguá),
  • Rosana Alves (Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória),
  • Sergio Zaidhaft (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Estácio de Sá)

Apoio:  Instituto Faimer Brasil


INSCRIÇÕES: 

https://goo.gl/forms/RAiCpedXtDUNhFIq1






TEXTO DE REFERÊNCIA DA WEB-OFICINA


NÃO É NORMAL

    Burnout

Todos sabem, né? Funções em si mesmas com uma carga de exigência e stress grandes, como jornalistas fechando uma edição de jornal, bombeiros, policiais, profissionais da saúde em emergência e, no Brasil, mais do que tudo, professores de ensino fundamental que dão aula em zonas de violência.

Em algum momento, as forças se esgotam, aparece algum sintoma físico ou mental, pede-se licença, outra licença, volta-se ao trabalho desanimado até passar a crer que escolheu a profissão errada, que não está dando certo e nunca vai dar certo em nada, e se deprime com maior ou menor gravidade.

Os vídeos do #naoenormal, os depoimentos de alunos de Medicina do Brasil (do mundo?) tratam deste fenômeno. Nome novo para coisas antigas? Entidade separada de depressão? Não importa, importa que o nome pegou e talvez possa ser um bom gancho para início de conversa.
 

  Por que isto num curso de Medicina? (É o que conheço. Em todos os outros da saúde também?)

“O curso é pesado mesmo”, “ser médico é pesado mesmo” e frases semelhantes é o que todos sempre ouvimos e dizemos. Ok. Por que será? A atividade profissional fica para outra hora. Já quanto ao curso algumas hipóteses:

a.      “A quantidade de matéria”. Uma antiga diretora da Medicina-UFRJ pesquisou com todos os coordenadores de disciplinas quais conteúdos gostariam de dar e em quanto tempo. Somou tudo e o resultado foi que o curso duraria 23 anos! Contei isto a uma turma de alunos, e um bem sagaz comentou: “agora entendi tudo. Enfiaram a matéria de 23 anos em 6”. Genial, né?

Primeiro argumento: em parte, a matéria é extensa mesmo, mas o que é prioritário se ensinar? Qual o tempo reservado para estudo? O que vai se avaliar? Eu, por exemplo, vou dar um curso “Bob Dylan: vida e obra” (1 e 2). O que vou esperar que os alunos aprendam? As várias fases do artista, suas principais temáticas, suas influências, a quem influenciou etc., ou, como muitos professores fazem, qual o nome do baterista que tocou numa única faixa de um único disco, das dezenas que ele gravou? Resumindo: ensina-se o que o aluno precisa saber e/ou onde saber e como buscar ou o que o professor quer ensinar?

Segundo argumento: estudar/aprender é um prazer ou um encargo? Alunos queixam-se seguidamente da “obrigação de estudar”. Claro que é um encargo estudar para fazer prova, ter que aprender coisas que aparentemente não fazem sentido naquele momento, mas será que tem de ser só assim? Claro que não dá para um curso de Medicina ser uma Summerhill (busquem no Google) ou seguir as ideias do José Pacheco (Tedtalk no youtube), ok, mas será que tem de ser só o oposto disso e zero de prazer, zero de fascínio ao se conseguir ouvir uma 4ª bulha ou um sopro, diferenciar um som timpânico de um maciço, assim por diante? Caramba! Tantas descobertas que se pode fazer ao se examinar o corpo e a mente de um paciente e isso virar um encargo. Isso não faz sentido.

Resumindo (com perdão pelo chavão): aprendizagem significativa e –sem jargão algum – com prazer.

Desafio: como equilibrar estes lados da gangorra que só pesa para um lado? Que fazer para que os encargos sejam justos e razoáveis? Que atividades e disciplinas (grifo proposital, não somente as atividades fora do mainstream) desenvolver para equilibrar a gangorra? 

b.      “Pra ser médico tem que pendurar os sentimentos num cabide”; “não vá se envolver com paciente. Deste jeito você vai sofrer tanto que vai acabar largando a Medicina”.

Um antigo autor – Goffman- escreveu sobre o que ele denominou instituições totais. Seriam aquelas em que o indivíduo ao nelas entrar perderia sua identidade original e passaria a ter uma nova. Ex: manicômios, prisões e conventos (título de um livro seu). Escolas de Medicina também?

Ora, os alunos passaram por um vestibular, na verdade em sua maioria 2, 3 ou 4 anos de vestibular em que se matam de estudar, abrem mão de grande parte dos prazeres da vida de um jovem em nome do seu sonho e ainda enfrentam a crítica de muitos que os rodeiam pela escolha tão difícil que fizeram para entrar numa faculdade. Pois bem: será que estes jovens se surpreendem com a “quantidade de matéria” da faculdade? Será que é isso? A decepção pela quantidade de matéria e ter que abrir mão de prazeres sociais? Mas não ficaram um tempão assim antes? Não sei, mas isto não me convence.

Primeiro argumento: todos foram excelentes alunos em suas escolas de origem. Esta era sua identidade prévia: melhores alunos. Um da UFRJ recentemente me contou que veio do interior do Ceará, uma cidade de 20000 habitantes, primeiro membro de sua família de pequenos agricultores a sair de sua cidade, foi até recebido pelo prefeito antes de vir para o Rio. Tirou nota baixa em sua primeira prova, quando estava ainda se aclimatando à cidade grande (moradia, preços, violência, transporte, enfim, tudo) e, a partir daí, emburacou e passou a só tirar nota baixa, foi reprovado várias vezes em várias matérias, acha que é burro, esconde as reprovações dos pais, acha que os colegas da nova turma –por ser repetente- já o olham de um jeito estranho e o que vai dizer ao prefeito, daí por diante.

Resumindo: entrada no curso como uma crise de identidade. Universidade (ou faculdade mesmo) e não mais colégio, vida adulta, melhores alunos deixando de sê-lo, expectativa não realizada, assim por diante. E ainda as outras crises: paciente que morre, internato e escolha de especialidade entre outras.

Segundo argumento: mais do que uma crise de identidade haveria sim a necessidade de se criar uma nova. Baseada em que? Um autor –Jean Clavreul- postula no livro “A ordem médica” que não há relação médico-paciente e sim uma relação instituição médica-doença. Sou professor de uma disciplina cujo objeto é a relação médico-paciente, ou seja, quase rasguei o livro, xinguei o autor de tudo que é nome, mas ele tem razão (em parte, pelo menos). Seguindo Foucault (o objeto da Medicina é a lesão, por ser nela e por ela que se constitui como um conhecimento científico), Clavreul diz que, para ser “científica”, a Medicina exclui a subjetividade (ele denomina o processo de dessubjetivação) daqueles que compõem a relação médico-paciente.

Ou seja, não se envolver, pendurar os sentimentos etc. fala disso: para ser médico (científico) não se pode ter sentimentos, subjetividade. Penso que aqui reside o ponto central. Não bastasse o sofrimento pela “quantidade de matéria”, a necessidade de se manter num lugar ideal de melhor aluno, as tensões resultantes do contato com pacientes mais ou menos graves numa idade em que a maioria se considera imortal e quer curtir a vida, os alunos ainda têm que aprender que devem -o termo que me vem é este, então vai este mesmo- embrutecer! E que isto é imperioso para ser um bom médico.

Mais ainda: este embrutecimento, este não se importar com sentimentos dos pacientes e os próprios acaba sendo entendido (transmitido pelos professores. Nós!) como uma nova identidade que deve ser adquirida no seu treinamento e na própria vida de relação dentro e fora da faculdade, constituindo quase uma nova família (a associação se impõe. Se é matando uma característica de vida, não posso deixar de dizer: mafiosa). Compartilhar dúvidas, inquietações com colegas que poderão ser seus concorrentes? Tirar dúvidas em aula e todos perceberem que é mais lento que os outros? De jeito nenhum! Imagina o que vão pensar de mim! Sofrer com algum relato de paciente? Ter vontade de chorar? Aí mesmo que vão dizer que não levo jeito pra ser médico. Em boca fechada não entra mosca.

Resumindo: resultado deste caldo só pode ser burnout.

Desafio: canais para expressar/compartilhar sentimentos em programas de mentoria e –sim!- em disciplinas obrigatórias; disciplinas (todas!) abertas para o aluno pensar o próprio processo de formação; atividades para fortalecer grupo, atenuar concorrência, estimular amizade, lealdade, essas coisas, carga horária reservada para viver e, last but not least, ARTE.

Penso que setores para acompanhamento psicológico dos alunos não são malvindos, pelo contrário, até promovi um convênio da Faculdade com uma Sociedade de Psicanálise (alguns analistas vão ao Fundão –onde fica a faculdade- para atender de graça alunos que não têm tempo para se deslocar para a Zona Sul, onde ficam seus consultórios), mas não creio que seja esta a prioridade e sim o que escrevi acima. Meu receio é que priorizar atendimento psicológico e/ou psiquiátrico não mexa no cerne mesmo do problema. 

Já ouço e me ouço: vá convencer os professores. Melhor dizendo: por que ensinar é um encargo e não um prazer? Aí seriam mais 4 páginas. Chega.

PS: 2 filmes. “Whiplash”- Em busca da perfeição. Damien Chazelle, diretor.

“Full metal jacket”- Nascido para matar. Stanley Kubrick, diretor. Primeira parte do filme.



terça-feira, 23 de maio de 2017

Palliative care



New book provides the latest information on establishing palliative care organisation and delivery worldwide

A new book on: ‘Building Integrated Palliative Care Programmes and Services’ has been published by former members of the Technical Advisory Group supporting the World Health Organization Palliative Care Initiative. 

 

The book was launched at the 15th World Congress of the European Association for Palliative Care and provides the latest information on palliative care organisation and delivery, with expert contributors drawing on examples from around the world.


Lack of access to palliative care and pain relief is a global public health crisis. Every year 40 million people, their families and carers need palliative care, yet only about 3 million are able to access the care they need. The majority of these are adults over 60 but 6% are children.

The WHO defines palliative care as: 'An approach that improves the quality of life of patients and their families facing problems associated with life threatening illness, through the prevention and relief of suffering by means of early identification and impeccable assessment and treatment of pain and other problems, physical, psychosocial, and spiritual'.

In 2014, the World Health Assembly (the governing body of WHO) passed the resolution: Strengthening of palliative care as a component of comprehensive care throughout the life course, calling on all governments to ensure that palliative care is integrated into their national healthcare systems.

This book is a guide to designing, implementing, and evaluating palliative care programmes and services, moving a focus on integrating palliative care into mainstream healthcare systems. It includes the latest definitional, organisational, and clinical aspects of palliative care, and is a great resource for countries wanting to begin or to build palliative care.

Dr Stephen R. Connor, Executive Director of the Worldwide Hospice Palliative Care Alliance and co-editor of the book, said: "Palliative care is too often organised outside mainstream healthcare. If we are to meet the enormous challenges of delivering care to the 40 million worldwide who need it annually we need to imbed palliative care into existing primary, secondary, and tertiary healthcare, especially in low and middle income countries where nearly 80% of the need for palliative care exists."

Dr Xavier Gómez-Batiste, MD PhD, Director WHO Collaborating Centre for Public Health Palliative Care Programmes (WHOCC-ICO), Catalan Institute of Oncology and co-editor of the book, said: "This manual not only describes the essentials of palliative care, but also the innovative strategies and actions to design and implement comprehensive programs and services integrated into health systems."

The authors recommend that the book is used by policy makers and practitioners to improve palliative care service delivery for people accessing care and their families.
 
The book: 'Building Integrated Palliative Care Programmes and Services' can be downloaded from the Resources section of our website.

 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Saúde Mental dos Estudantes de Medicina




Medicina da USP se mobiliza após tentativas de suicídio


CLÁUDIA COLLUCCI



Painel pintado por alunos do 4º ano de medicina da USP no subsolo da faculdade


 
 
 


Um série de tentativas de suicídio entre alunos do quarto ano de medicina da USP tem mobilizado estudantes e professores de uma das melhores faculdades do país. 

Ao menos seis casos foram registrados neste ano –três nas últimas semanas.

O clima de tensão aparece em páginas do Facebook dos estudantes –que citam "surto de suicídios"– e em textos de professores aos alunos.

"Ficamos muito chocados com os acontecimentos recentes envolvendo a saúde dos alunos. Há uma grande apreensão e tristeza pairando em todos nós", escreveu o coordenador do curso de clínica médica do quarto ano, Arnaldo Lichtenstein, que adiou a prova na última sexta (7).

Em outra carta, um grupo de profissionais do serviço de psicoterapia do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP) fala sobre a angústia dos alunos.

"Esgotamento, ansiedade, depressão, internações psiquiátricas, tentativas de suicídio, mortes. Os relatos [dos estudantes] nos parecem crescentes em frequência e intensidade, e soam como um pedido de ajuda."

O texto fala sobre as dificuldades em lidar com o assunto no ambiente acadêmico e termina com um convite para que os alunos saiam do silêncio e falem "do que não se fala, a não ser na privacidade dos corredores".

Na condição de anonimato, a Folha conversou com seis estudantes. Eles relatam que, no quarto ano, o aluno fica mais vulnerável porque as pressões se multiplicam.

"A formatura está próxima e a realidade da profissão vai matando as ilusões dos tempos de calouros. Há disputas infantis por notas, muitas divulgadas nominalmente."

Outro afirma que não existe tempo suficiente para atividades que não estejam ligadas ao mundo médico. As aulas começam às 8h e terminam às 18h quase todos dias.

"Além do cansaço mental, da desumanização cotidiana, temos que ter a cabeça tranquila para estudar doenças."

Os alunos apontam como um dos focos do problema a disciplina de clínica médica. "Em apenas dez semanas de duração, somos cobrados sobre fisiopatologia das doenças, sobre diagnósticos e sobre quais exames solicitar para excluir ou confirmar hipóteses", relata um deles.

Ele se queixam também que a saúde mental do aluno não é considerada quando se trata de faltas. "As notas de conceito [quase 50% da nota final] são multiplicadas pela frequência. Se o aluno está deprimido, não consegue ir às aulas. Mas não podemos faltar sem punição. Não temos tempo para cuidar da nossa saúde mental e física."

Outro fator de estresse são as "panelas". No quarto ano, são formados grupos de cerca de 15 alunos para o estágio obrigatório (internato).

Em várias universidades, como na Unicamp, os grupos são formados por sorteio, mas, na USP, é por livre escolha. São os alunos que decidem com quem se agruparão, o que gera grupos de exclusão e perseguição.

"Alunos mal vistos ou que não são bem relacionados, por inúmeros motivos, acabam sobrando e formando a famigerada 'panela lixo' ou são excluídos e têm que mendigar uma vaga entre os grupinhos já formados."


APOIO PSICOLÓGICO

Para Francisco Lotufo Neto, professor de psiquiatria indicado pela diretoria da FMUSP para falar sobre o assunto, as tentativas de suicídio estão relacionadas a uma soma de fatores.

"São jovens em amadurecimento, enfrentando a entrada numa profissão que tem contato com o sofrimento humano. É um curso difícil, que exige das pessoas. Também há a pressão pelo sucesso."
Em sua opinião, isso tudo leva a uma maior predisposição à depressão, que é mais prevalente entre os estudantes de medicina do que na população em geral.

Segundo ele, na comissão de graduação já existe um grupo que acompanha os alunos com dificuldades (por exemplo, que foram mal nas provas ou que têm faltado às aulas), mas que agora, após as tentativas de suicídio, foi criado um grupo de atendimento psicológico para atendimento individualizado.

Foi instituída também uma linha telefônica que funciona 24 horas para onde os alunos podem ligar em situações de emergência. "Fiquei como plantonista o fim de semana todo, mas ninguém ligou", diz Lotufo.

Sobre as queixas relativas à falta de tempo dos alunos, ele afirma que a nova grade curricular da medicina, implantada a partir de 2015, já prevê mais tempo livre aos alunos. "O atual quarto ano ainda segue a grade antiga."

Em relação às panelas, disse que já houve uma proposta da direção em adotar sorteios na formação dos grupos, mas que a maioria dos alunos foi contrária à ideia.




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Sinais de Alerta



Ilustração Carolina Daffara/Editoria de Arte/Folhapress















 
  • falar sobre querer morrer
  • procurar formas de se matar
  • falar sobre estar sem esperança ou sobre não ter propósito
  • falar sobre estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • falar sobre ser um peso para os outros
  • aumento no uso de do álcool e drogas
  • agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • dormir muito ou pouco
  • se sentir isolado
  • demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • ter alterações de humor extremas
  • quanto mais sinais, maior pode ser o risco da pessoa





Ilustração Carolina Daffara/Editoria de Arte/Folhapress



O que fazer
  • não deixar a pessoa sozinha
  • tirar de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • ligar para canais de ajuda
  • levar a pessoa para uma assistência especializada 








Ilustração Carolina Daffara/Editoria de Arte/Folhapress



Alguns pontos de alerta para depressão em adolescentes:
  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola, no trabalho e em outras atividades rotineiras
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Disforia marcante (combinação de tristeza, irritabilidade e acessos de raiva)
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava

Cerca de 90% das pessoas que morrem de suicídio possuíam transtornos mentais. Elas poderiam ser tratadas e acompanhadas


Mitos em relação ao suicídio

 
Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso
Questionar sobre ideias de suicídio, fazendo-o de modo sensato e franco, fortalece o vínculo com uma pessoa, que se sente acolhida e respeitada por alguém que se interessa pela extensão de seu sofrimento.
Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular...
Muitas pessoas que se matam dão previamente sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Ainda que em alguns casos possa haver um componente manipulativo, não se pode deixar de considerar a existência do risco de suicídio.
Quem quer se matar, se mata mesmo
Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. Ao contrário dessa ideia, as pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Quando falamos em prevenção, não se trata de evitar todos os suicídios, mas sim os que podem ser evitados.
Veja se da próxima vez você se mata mesmo!
O comportamento suicida exerce um impacto emocional sobre nós, desencadeia sentimentos de franca hostilidade e rejeição. Isso nos impede de tomar a tentativa de suicídio como um marco a partir do qual podem se mobilizar forças para uma mudança de vida.
Uma vez suicida, sempre suicida!
A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. Embora a ideação suicida possa retornar em outros momentos, ela não é permanente. Pessoas que já tentaram o suicídio podem viver, e bem, uma longa vida. 


Telefones e sites de ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV): 141
Também é possível entrar em contato e receber apoio emocional do CVV via internet, a partir de email, chat e Skype 24 horas por dia 

Fontes
American Foundation for Suicide Prevention; 
Centro de Valorização da Vida; 
"Comportamento suicida: vamos conversar sobre isso?", de Neury José Botega, membro-fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio; 
"Preventing Suicide: A Global Imperative", da Organização Mundial da Saúde