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domingo, 25 de maio de 2014

Blogs científicos


Crise no jornalismo estimula aumento de blogs científicos

Elton Alisson - Agência FAPESP 

A crise pela qual passa o jornalismo mundial, causada em parte pela convergência para novas plataformas digitais, tem afetado a cobertura jornalística de ciência e estimulado o surgimento de blogs científicos em diversos países, inclusive no Brasil.

A avaliação foi feita por Juliana Santos Botelho, pesquisadora e coordenadora da Coordenadoria de Comunicação Científica (CCC/Cedecom) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em um painel sobre o uso de mídias sociais na comunicação da ciência durante a 13th International Public Communication of Science and Technology (PCST), realizada entre os dias 5 e 8 de maio em Salvador, na Bahia.

Especiais

Com o tema central “Divulgação da ciência para a inclusão social e o engajamento político”, o encontro ocorreu pela primeira vez na América Latina e reuniu pesquisadores de mais de 50 países para debater práticas e estratégias de comunicação e divulgação científica adotadas em diferentes partes do globo.

“Há um crescimento do número de blogs de ciências no mundo, especialmente nos países que falam inglês, e a crise no jornalismo mundial tem contribuído para esse aumento”, disse Botelho, que também mantém, o blog Diálogos com Ciência e realizou um estudo sobre 150 blogs no Brasil.

De acordo com dados apresentados pela pesquisadora, a crise no jornalismo mundial tem causado um alto número de demissões em massa e a redução do número de jornalistas em atuação nas redações dos grandes veículos de imprensa em todo o mundo, incluindo os do Brasil.

Uma das principais consequências desse processo, na avaliação dela, é um número cada vez menor de jornalistas cobrindo um número cada vez maior de assuntos.

Em razão disso, a cobertura de ciência nos grandes veículos perdeu espaço editorial nas páginas dos grandes jornais e no noticiário das emissoras de rádio e de televisão.

“Essas mudanças têm causado impactos na cobertura de ciência feita pelos grandes veículos de comunicação, em termos de qualidade, em todo o mundo”, avaliou Botelho.

De acordo com a pesquisadora, outra consequência sensível do impacto da crise do jornalismo na comunicação da ciência é a homogeneização cada vez maior da cobertura jornalística do assunto.

Com a redução do número de jornalistas nas redações, os veículos de comunicação de diversos países têm recorrido cada vez mais a materiais jornalísticos padronizados sobre ciência produzidos por agências de notícias internacionais, apontou Botelho.

O problema é que os veículos recebem o mesmo tipo de material que seus concorrentes, que também compram das agências de notícias, e fazem pequenas adaptações.

Na maioria das vezes, as matérias sobre ciência produzidas pelas agências de notícias internacionais são relacionadas à produção científica de países do hemisfério Norte, ressaltou Botelho.

“Os pesquisadores brasileiros não aparecem na maior parte das matérias sobre pesquisas científicas publicadas no Brasil, por exemplo. E, quando aparecem nas notícias sobre ciência, é para comentar os resultados de estudos que foram publicados por pesquisadores de países do hemisfério Norte”, avaliou.

Crescimento dos blogs

A fim de suplantar a perda de espaço editorial dedicado à ciência, especialmente na mídia impressa, e aumentar a divulgação de resultados de pesquisas realizadas por cientistas brasileiros, tem aumentado o número de blogs de ciência no Brasil, apontou Botelho.

O número de blogs de ciência brasileiros, contudo, ainda é bem menor do que o número de blogs nos Estados Unidos e na Europa. E as políticas editoriais para os blogs ainda são muito incipientes no Brasil, destacou a pesquisadora.

“No Brasil não temos políticas editoriais muito estruturadas para blogs em geral e para os blogs científicos como as implementadas por veículos de imprensa e instituições universitárias de países como os Estados Unidos e Reino Unido”, comparou Botelho.

Segundo a pesquisadora, alguns veículos de comunicação têm optado por cientistas (ou pessoas de outras áreas que nunca tinham usado blogs) para serem seus blogueiros colaboradores.
Outras especificidades dos blogs de ciência brasileiros, de acordo com Botelho, é que eles são bastante independentes. Em sua maioria, não estão ligados a empresas de comunicação ou instituições.

O volume de notícias publicadas pelos blogs científicos brasileiros presentes nos veículos de comunicação também é menor do que o de outros blogs independentes no país. A publicação nos blogs da imprensa é constante, mas não é muito frequente. O que mais chama a atenção da pesquisadora nos blogs de ciência no Brasil, contudo, é a falta de interatividade.

“Isso pode ser uma característica cultural do Brasil”, avaliou Botelho. “Geralmente as pessoas se sentem mais à vontade para postar seus comentários em redes sociais, como o Facebook e o Twitter, mas não nos blogs”, disse Botelho.

A pesquisadora ressaltou, no entanto, que, apesar da importância dos blogs científicos para aumentar a difusão da comunicação de ciência, eles não devem substituir a cobertura jornalística de ciência pelas mídias tradicionais, como jornal, rádio e televisão.

Isso porque esses meios de comunicação já possuem público cativo e abordam assuntos científicos com maior frequência do que os blogs científicos, apontou Botelho.

“Os blogs científicos possuem um papel muito importante de experimentação de novos formatos de publicação e de estilos de escrita. Mas não devem, de forma alguma, substituir a cobertura jornalística sobre ciência e sim complementá-la”, afirmou. 

sábado, 10 de maio de 2014

Plataformas de divulgação científica


Interatividade da internet mudou a forma de comunicar a ciência

Elton Alisson

As novas plataformas de web 2.0 – como é denominado o uso interativo da internet –, tais como blogs e redes sociais, têm transformado o modo de comunicar a ciência e aumentado a difusão de conteúdo científico em diversos países, incluindo o Brasil.


 


A avaliação foi feita por especialistas participantes de um painel sobre o uso de mídias sociais na comunicação da ciência durante a 13th International Public Communication of Science and Technology (PCST), realizada entre 5 e 8 de maio em Salvador, na Bahia.

Com o tema central “Divulgação da ciência para a inclusão social e o engajamento político”, o encontro ocorreu pela primeira vez na América Latina e reuniu pesquisadores de mais de 50 países para debater práticas e estratégias de comunicação e divulgação científica adotadas em diferentes partes do globo.

“Com o advento das novas mídias on-line, as visões tradicionais da comunicação da ciência estão sendo redefinidas”, disse Dominique Brossard, professora e chefe do Departamento de Comunicação de Ciências da Vida na University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.

“Temos cada vez mais blogs de ciência em diversos países, que em grande parte não são feitos por cientistas ou jornalistas científicos, mas por pessoas comuns, com interesses específicos por determinados assuntos científicos, que na tentativa de compreender a ciência têm produzido conteúdo de uma forma que não era feita há dez anos”, disse Brossard, que lidera o Laboratório de Pesquisa em Ciência, Comunicação Social e Público (Scimep, na sigla em inglês) da universidade norte-americana.

De acordo com Brossard, além dos blogs, outras mídias sociais, como o Facebook e o Twitter, têm impactado fortemente o engajamento público na ciência e tecnologia.

São necessários, no entanto, mais dados empíricos para avaliar a real dimensão desse impacto, a forma como o público se relaciona com essas novas mídias e como a informação é difundida nesses novos meios de comunicação, afirmou a pesquisadora.

“Diversos estudos têm demonstrado que as redes sociais contribuem para a difusão de notícias sobre diversos temas, inclusive ciência e tecnologia, e que o público é amplamente a favor da publicação de notícias nas redes sociais”, apontou.

“Mas a pesquisa sobre a comunicação on-line da ciência ainda apresenta muitos desafios e são necessários mais estudos para comprovar nossos pressupostos, que são diferentes dos que tínhamos em relação às mídias tradicionais”, avaliou Brossard.
Segundo a pesquisadora, alguns estudos recentes – como o Reuters Institute Digital News Report 2013, publicado em julho do ano passado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Oxford University, do Reino Unido – indicam que o público consome cada vez mais notícias on-line. No caso das notícias sobre ciência e tecnologia, essa tendência não é diferente.

“As pessoas voltam-se cada vez mais para ambientes on-line a fim de encontrar informações sobre ciência e acompanhar os progressos científicos”, afirmou.

“E, em muitos países, as pessoas procuram por informações científicas cada vez mais por meio de buscadores, como o Google, em vez de seguir fontes específicas, como os sites dos principais jornais de seu país”, apontou Brossard.

Uma das características das notícias publicadas hoje no universo on-line, de acordo com a pesquisadora, é que elas estão cada vez mais contextualizadas – ou seja, são acompanhadas por seções de comentários e são “tuitadas”, “retuitadas” e reproduzidas nas redes sociais.

Segundo Brossard, esses “rastros” das notícias podem ser utilizados como indicadores para os pesquisadores da Ciência da Comunicação obterem dados empíricos para estudos sobre comunicação on-line. “Eles podem nos dar pistas para analisarmos os efeitos das notícias sobre ciência, por exemplo, no universo on-line”, indicou.

Uma das constatações feitas em um estudo realizado do grupo dela no Scimep com base em algumas dessas “pistas contextuais”, como ela as denomina, é que os comentários publicados sobre uma notícia podem mudar a forma como os leitores a interpretam.

“Descobrimos que os comentários podem modificar a percepção e a opinião de outros leitores em relação aos resultados de uma pesquisa científica relatados em uma matéria publicada em uma plataforma on-line”, disse Brossard.

A fim de minimizar esse efeito, alguns veículos, como a revista de divulgação científica norte-americana Popular Science, decidiram desativar a seção de comentários dos leitores em suas edições on-line, apontou a pesquisadora. “Essa ação nos forneceu evidências empíricas das nossas conclusões”, afirmou Brossard.

Diálogo com o público

Na avaliação dos participantes do painel, apesar da contribuição das mídias sociais no aumento da difusão de conteúdo relacionado à ciência no mundo, elas são pouco utilizadas e exploradas pelos comunicadores da ciência.

Tantos os jornalistas científicos como os cientistas estão sub-representados no universo digital, apontaram.

“Os cientistas e jornalistas científicos precisam se adaptar e estar mais presentes nessas novas mídias”, disse Mohammed Yahia, editor do Nature Middle East – site da revista científica britânica que se concentra em notícias do mundo árabe relacionadas à ciência.

“Para isso, é preciso estar disposto a ouvir o que o público quer saber e estar aberto a comentários sobre seu trabalho que muitas vezes são terríveis, mas também a receber sugestões muito boas que podem ser úteis para melhorar a narrativa de suas histórias sobre descobertas científicas”, avaliou.

Na opinião de Yahia, as mídias sociais possibilitam aos comunicadores de ciência uma aproximação do público e o seu engajamento nas histórias que contam.

Uma experiência em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, segundo ele, é a dos podcasts científicos – arquivos de áudio transmitidos por internet – em que os ouvintes são convidados a responder a uma determinada pergunta sobre um problema científico e as respostas são incorporadas nos próximos episódios.

“É preciso que os comunicadores de ciência tentem envolver seu público na produção de suas histórias”, disse Yahia. “Ao fazer isso, o público também passa a se sentir dono da história relatada e tem maior interesse em pesquisar sobre um determinado assunto científico, adicionar e compartilhar informações”, estimou.