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domingo, 20 de agosto de 2017

Humanização



Ver e ouvir para uma medicina mais humanizada


Acadêmicos do primeiro nível do curso de Medicina participaram de oficinas de sensibilização por meio da imagem

O programa de extensão ComSaúde, vinculado à Faculdade de Medicina (FM) e à Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo (FAC/UPF), promoveu na tarde dessa quarta-feira, 16 de agosto, uma atividade com os acadêmicos do curso de Medicina nível I. A atividade integrou a disciplina de Saúde Coletiva, ministrada pela professora Carla Gonçalves. Os acadêmicos, divididos em dois grupos, participaram de dois momentos diferentes: uma oficina com o tema “Leitura de imagem e narrativa visual”, com a professora e coordenadora do ComSaúde, Cristiane Barelli, e uma visita guiada à exposição “Olá, cidade”, com a professora Fabiana Beltrami, autora da exposição e também integrante do programa. As atividades aconteceram na Galeria Estação da Arte, no Parque da Gare. 

 Foto: Gelsoli Casagrande

A atividade, de acordo com a professora Cristiane Barelli, faz parte do objetivo da Universidade de promover a curricularização da extensão, ou seja, levar as atividades dos projetos de extensão para dentro dos cursos de graduação, integrando-se com as disciplinas. A ideia de levar essa atividade para a disciplina de Saúde Coletiva foi, ainda segundo ela, com o objetivo de sensibilizar o olhar dos acadêmicos para que eles possam ser preparados para uma comunicação sensível com os pacientes, com as famílias e com as comunidades. “Daqui a alguns dias eles vão fazer diagnósticos de comunidade, vão visitar bairros, conversar com as pessoas, então a gente entendeu que como eles recém chegaram na Universidade e vem de um mundo que às vezes estava meio fechado, focados em passar no vestibular, seria importante abrir esse olhar deles de uma forma mais crítica, mais sensível, mais respeitosa”, explicou a professora. 

Imagem e sensibilização
 
Para promover essa sensibilização, as professoras escolheram a imagem como ferramenta. Para a professora Cristiane, para que a comunicação na saúde seja efetiva, é preciso que tenha elementos de sensibilidade e de escuta ativa e a imagem tem a capacidade de despertar isso nos acadêmicos. “Nós estamos investindo em quem vai ouvir pessoas, mas queremos também que eles trabalhem em se ouvir, porque eles são seres humanos antes de serem médicos. Quanto mais humanos forem, certamente serão médicos mais humanizados. A ideia de trabalhar essa mediação da leitura da imagem é para quebrar essa dureza do cotidiano também. A gente passa todo dia na mesma rua e não observa detalhes e isso vai endurecendo a gente, vai nos distanciando do que é mais importante na vida que é esse cuidar do outro e cuidar de si”, comentou. 

 Foto: Gelsoli Casagrande

Na opinião da professora Fabiana Beltrami, autora da exposição “Olá, cidade!”, que foi patrocinada pelo programa ComSaúde e propõe um olhar sobre a cidade de Passo Fundo em comemoração aos 160 anos do município, a ideia é justamente fazer com que os alunos possam ver os espaços pelos quais circulam, como são constituídos, como as pessoas se relacionam com ele.  “Aqui na exposição eles podem ver um olhar mais aproximado de coisas que não enxergam no seu cotidiano, de tentar ver melhor os detalhes da cidade, de perceber o quanto é importante o cuidado em se ver, em olhar aquilo que está diante deles de uma forma reflexiva, sem julgamentos. Ter essa experiência de que estar na cidade, estar no bairro também é uma vivência, faz parte da nossa saúde”, ressaltou a professora que acredita que como profissionais da medicina, os acadêmicos precisam desse cuidado de se ver. “Quando eu estou na cidade e eu a observo, eu tenho muito mais propriedade em participar dela, em cuidar dela e no caso de um médico, quando ele está tratando uma doença, esse olhar, esse cuidado de aprofundar o que ele vê, o que ele pergunta, o que ele questiona para as pessoas e a fotografia ajuda nisso. Não é à toa que a fotógrafa Dorothea Lange dizia que a fotografia ensina a ver”, finalizou Fabiana.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Ser Médico

O Verdadeiro Médico

Francismar Prestes Leal
 

Quando pacientes me procuram queixando-se de maus tratos por seus médicos anteriores, penso que o ensino médico deve estar errando de alguma forma. Creio que tenhamos focado demais nas doenças, desfocando do doente, mesmo que sem querer. Muitos médicos (não sei se deveria chamá-los assim) tratam as doenças com um esmero técnico formidável, porém esquecem de cuidar dos doentes, e dos seus medos, dos seus sonhos, das suas dúvidas, das suas carências, não apenas físicas. Outros, impacientes, chegam a desprezar todos os sentimentos dos seus pacientes, por vezes humilhando-os, furtando-lhes a esperança e tornando a vida dos mesmos ainda mais sofrida. Mais do que curar, o que muitas vezes é impossível, o verdadeiro médico também (e talvez principalmente) deve abraçar os seus pacientes, literalmente, confortando-os, mitigando seus sofrimentos com a sinceridade doce de um anjo. Ser médico não é somente medicar. Qualquer criatura minimamente inteligente pode ler bulas ou protocolos e colocá-los em prática. Qualquer ser adequadamente treinado pode fazer qualquer procedimento. Até robôs podem operar, fazer cirurgias complexas. Mas um médico de verdade é muito mais do que um técnico, do que um robô, do que uma máquina. O verdadeiro médico ama a humanidade, ama seus pacientes, quer o bem daqueles que estão sob seus cuidados, o bem mais completo possível, muito mais do que físico, um bem geral, que alcance a alma, o espírito, a fé, enfim, o indivíduo como um todo. O bom médico respeita seus pacientes e luta com todas as suas forças pela felicidade dos mesmos, o que inclui sua estabilidade física e não-física. O grande médico ouve atentamente o doente, examina-o detalhadamente com o devido pudor, busca as causas de suas mazelas e tenta corrigi-las de fato. Lamentavelmente, existem poucos médicos com "alma de médico". Há seres abjetos e malvados em todas as áreas de atuação humana, mas é triste ver que o número de criaturas que não sabem o que é realmente ser um médico aumenta, a cada nova geração, na profissão que deveria ser a mais humana das profissões. Futuros colegas, sejam mais do que meros técnicos, sejam, realmente, médicos. Aos colegas em atuação, sugiro que repensemos nossas ações.

domingo, 17 de abril de 2016

Ética em pesquisa




Aprovada a resolução sobre ética em pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais

Em carta enviada à comunidade científica, o pesquisador Luiz Fernando Dias Duarte destaca avanços e brechas abertas pela resolução. 



 https://www.abrasco.org.br/site/wp-content/uploads/2016/04/pesquisaCHS_not.jpg



Pesquisa clínica: é possível fazer o bem e o mal em investigações de ciências sociais e humanas. Portanto, elas igualmente precisam ser eticamente reguladas, mas de forma peculiar e adequada - Imagem: Blog ethicsalarms



No último 06 de abril, foi aprovada a nova minuta sobre ética em pesquisas nas Ciências Humanas e Sociais na 59ª reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS), uma batalha que vem sendo travada a meses. Em carta à comunidade científica, Luiz Fernando Dias Duarte, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social  da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ) e coordenador do GT de Ética em Pesquisa do Fórum das Associações de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (FACHSSA), relata o processo.


A minuta, produzida pelo GT, sofreu algumas modificações, introduzidas pela Mesa Diretora do Conselho após uma reunião realizada com representantes do GT e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisas (Conep).



A avaliação que ora fazem os representantes das associações científicas com assento no GT é a de que foi obtida uma grande vitória, após quase três anos de trabalho árduo e de luta contínua e exaustiva contra os preconceitos e vícios da Conep.


Na carta, Dias Duarte lista os principais ganhos obtidos com a aprovação da minuta:


.  adoção de um sistema de avaliação com gradação da gravidade dos riscos (em quatro níveis), e conseqüente tramitação diferencial dos projetos no sistema (art. 21);

. reconhecimento da diferença entre avaliação ética e avaliação teórica e metodológica; e conseqüente restrição da avaliação do sistema apenas às dimensões éticas dos projetos (art. 25);

. exigência de composição equânime entre os dois grandes grupos de ciências nos colegiados do sistema CEP/Conep: seja na própria Conep, seja nos CEP que pretenderem avaliar projetos de Ciências Humanas e Sociais (CHS) (art. 26 e 33);

. exigência de que a relatoria de projetos de CHS nesses CEP incumba a membros com competência nessa área (art. 26);

. criação de uma instância dentro da Conep dedicada à implementação da nova sistemática de avaliação nas CHS com a participação das sociedades científicas; incluindo-se aí a elaboração do novo formulário de registro na Plataforma Brasil (art. 29);

. possibilidade de promover a informação sobre a proteção dos participantes por meio de um “processo de esclarecimento” que não passe necessariamente por um “termo” formal (art. 5º.);

. possibilidade de comprovação do consentimento / assentimento dos participantes por outros meios que não o escrito (arts. 15 a 17);

. manutenção da possibilidade de realização de “pesquisa encoberta” nos casos justificados ao sistema (art.14);

. manutenção da possibilidade de realização de pesquisas sem processo prévio de autorização, nos casos justificados ao sistema (art. 16);

. afastamento de uma noção reificada de “vulnerabilidade”; e conseqüente adoção de um critério de situação de vulnerabilidade (arts. 2º., 3º. e 20);

. retirada do processo de registro de uma série de tipos de pesquisa (de opinião pública, censitária, decorrente de experiência profissional etc.) (art. 1º.);

. retirada do processo de registro das “etapas preliminares da pesquisa” (art. 24);

. eliminação da referência à “relevância social da pesquisa” como critério de avaliação da ética em pesquisa nas CHS;

. eliminação da referência à bioética como pertinente na avaliação da ética em pesquisa nas CHS.


Ele destaca que o pleno sentido desta resolução só será atingido quando for aprovada a resolução específica sobre gradação e avaliação dos riscos. A resolução vem sendo negociada dentro do âmbito da Conep com os representantes das ciências biomédicas. O GT já elaborou a sua proposta relativa a esse tópico, formalizando o reconhecimento das diferenças desse tema entre os dois grandes grupos de ciências.


A resolução dependerá também da aprovação de um novo formulário de inscrição na Plataforma Brasil, que permitirá um encaminhamento mais claro e ágil das propostas, com bifurcações sucessivas a partir do registro como pesquisa biomédica ou social e humana. Um esboço desse formulário também já foi delineado pelo GT.


Retrocessos: Dias Duarte ressaltou também os pontos em que esta nova resolução não avançou ou não poderia ter avançado. “Para muitos de nós, o sistema CEP/Conep é um sistema excessivamente vasto e centralizado, com riscos muito altos de burocratização; pouco propício à necessária tarefa reflexiva e educativa que a gravidade e complexidade da matéria exigiria continuadamente. Será necessária uma grande luta para transformar o sistema com o aporte crescente e sistemático das Ciências Humanas e Sociais.”


Ele destacou que não foi possível encontrar uma fórmula adequada para o problema dos trabalhos de conclusão de curso (TCCs), monografias e similares que envolvam pesquisa direta com sujeitos sociais; cujo curto prazo de realização dificilmente se pode adequar ao sistema de registro centralizado, por mais ágil que este possa vir a ser (artigo 1º., VIII). Uma saída oblíqua para o problema poderá ser a do artigo 27, com o registro dos projetos dos alunos, como emenda, de projeto registrado em nome do professor ou orientador.


“Um desafio que se apresentará logo adiante aos representantes das Ciências Humanas e Sociais é o de fazer reverter a atual situação da pesquisa com indígenas, considerada liminarmente como de alto risco pelo sistema CEP/Conep, mantendo e aprofundando uma visão tutelar fartamente ultrapassada no espaço nacional. As manifestações da consulta à sociedade sobre a minuta enfatizaram com muita ênfase a necessidade de alteração dessa norma. Certamente passará a ser uma importante tarefa das associações de Ciências Humanas e Sociais promover e suscitar por toda parte a criação de CEPs voltados para a área, de modo que os princípios da nova resolução possam ser aplicados sem os ranços do sistema anterior”.


O docente finalizou sua avaliação ressaltando que as associações precisam decidir como lidar com a disposição original e prioritária apontada pelo GT da FACHSSA para a criação de uma “via externa” ao Ministério da Saúde (possivelmente no Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação) para a avaliação da ética em pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais. “Nesta nova fase, de implementação dos mecanismos suplementares da resolução aprovada pelo CNS, será possível ou conveniente se conformar com a “via interna”, lutando dentro dela?” questiona Dias Duarte no final de sua carta.

domingo, 15 de março de 2015

Art of Being Human



To Help Students Succeed Professionally and Personally, Teach the Art of Being Human


By Lisa M. Dolling

       Michael Morgenstern for The Chronicle



Among the many false dichotomies fostered by the continuing debates surrounding higher education, one that I find especially disconcerting is that which pits the professional against the personal. While it is expressed in a variety of ways, it boils down to this: Either you believe the purpose of going to college is to be able to secure a (preferably high-paying) job, or you think there is something more intrinsically valuable to be gained from the years spent earning a degree. My question is: When did these become mutually exclusive?

Yet believing that they are is one of the unfortunate conclusions many people draw from the endless bickering about the value of a college education, a debate that many believe was ignited by Ronald Reagan’s disparaging of "intellectual curiosity," and intensified with Scott Walker’s recent proposal that the University of Wisconsin revise its mission statement to replace references to the "search for truth" or desire to "improve the human condition" with clear (read "practical") goals of meeting "the state’s work-force needs." Politics aside, I doubt that either of these officials wanted to assert that professionals need not be thoughtful or reflective. However, that is precisely what this sort of sloppy rhetoric implies and what continues to drive the public’s misconceptions about higher education and the "value" it holds for our society.

Education is first and foremost about learning; about developing the intellectual capacities needed to succeed as professionals and human beings. This was the belief that inspired W.E.B. Du Bois to declare in a 1949 essay, "Of all the civil rights for which the world has struggled and fought for 5,000 years, the right to learn is undoubtedly the most fundamental," for which "we should fight to the last ditch."

Few people would disagree. After all, how can we expect our society to flourish without a citizenry that values learning as among the highest of virtues or expect our nation to excel without providing for everyone the resources necessary to cultivate intellectual curiosities in new and innovative ways? Most important, how will we ever establish our moral credibility if we do not encourage these pursuits with an eye to improving the human condition? The problem is that many people are able to maintain these beliefs while at the same time dismissing as "intellectual luxuries" such ideals as the "search for meaning" or "concern for the common good."

Of course, given the exorbitant cost of higher education, it is understandable that professional success would become the priority. Mounting student debt and the financial strain of paying for college are perils that deserve serious attention. As the mother of a high-school senior, I shudder at the prospect of having to pay more over the next four years than we originally paid for our house. And I too want to make sure my daughter learns everything necessary to have a successful career. But as an educator, I also know that this will involve much more than just training her for a profession. As I often remind my students, in the end it is not only a matter of what you do, it’s how and why you do it; and the knowledge that this requires above all is knowledge of oneself.

Ironically, students are the ones who seem to understand this more readily than many of the "experts" weighing in on the debates. Students tend to recognize self-reflection and quest for meaning as instrumental to their future success and not just "frills" to be consigned to the dustbin of impracticality, as many would have it. Therefore, I would entreat everyone with a vested interest in higher education to take a moment to ask students directly what they find most valuable about the educational process. I am confident that as a result, the tide of the debates would soon start to turn.

I teach philosophy at a university known for engineering and science, where students are driven and focused, with just one goal in mind: getting that high-paying job. That is, until they set foot in their humanities classes; there something magical happens. Suddenly they are no longer engineering students, but just students, with a willingness to learn as much about themselves as about the material.

A favorite example involves a math major who enrolled in my aesthetics course a few years ago hoping to get his humanities requirements out of the way. One of the works we read is Plato’s Ion, whose main character is a rhapsode devoted to the works of Homer. Ion describes how ecstatic he becomes at the mere mention of Homer’s name, and how while reciting the poet’s works he is literally taken out of his senses.

After discussing the dialogue, I ask students to identify a work of art that does to them what Homer’s poetry does to Ion. In all the years I have been teaching aesthetics, I have never had a student unable to do this assignment—until that math major. He told me he didn’t like poetry, had no interest in painting, and never listened to music, and therefore wanted to be excused from the assignment. I explained that it wasn’t about the object per se, but rather the transformative experience. His response was that he never really got that excited about anything in life and therefore was at a loss.

I advised this student to take some time to think about it and get back to me. Much to my delight, a few days later he emailed me with an idea. He asked me if he could use a mathematical proof as an example of something he found to be inspirational.

I shall never forget the experience of sitting in the classroom with the other students as this young man explained the majesty of Euler’s Theorem, swept away by his passion and enthusiasm. At one point it was as if he had forgotten where he was. Most remarkable was when he told us he had never explained the proof to anyone before; up until then he had merely used it.

After class the student thanked me for the opportunity to discover something about himself that he never knew; namely, that he was capable of becoming so absorbed in his work that he could appreciate it in entirely new ways. I’m pretty confident that is a realization that will benefit him professionally no less than personally.

Just the other day, a different student asked me why I included a selection from Aristotle’s Nicomachean Ethics on the syllabus for my aesthetics course, a course intended to examine philosophies of art. I explained that in many respects, Aristotle’s work is intended as a treatise on the "art of being human," a craft we need to hone no less than any other. The student’s response was, "Wow, how interesting. That’s an art we seem to have lost sight of these days." I had to hold myself back from replying, "Gee. I wonder why."


* Lisa M. Dolling is dean of the College of Arts and Letters at Stevens Institute of Technology.